PES 2014: review VideoGamer

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Nem a ausência de algum conteúdo atrapalha os resultados de uma revolução feliz.

por Pedro Martins

PES 2014 screenshot
A experiência de Pro Evolution Soccer 2014 ressoa muito além do que se passa dentro das quatro linhas. Como um corte num dedo, depois do impacto inicial existem momentos espontâneos em que somos lembrados que aquilo está lá num suspiro desprendido do peito entre partidas em que estamos fisicamente longe da consola mas espiritualmente a rever mentalmente aquela jogada que nos enche de orgulho ou aquela pesada derrota que nos fez repensar a nossa habilidade, tantas vezes consagrada ao longo dos capítulos anteriores de uma série que precisava de nervo, de fibra, enfim, uma série que urgia sangue novo a correr-lhe nas veias desgastadas pela transição para a atual geração de consolas. Dizer que Pro Evolution Soccer teve dificuldade a adaptar-se às consolas que foram lançadas há anos diz muito do tormento que os fãs da série têm passado. Um calvário de promessas e desculpas anuais, um adiar constante da conquista dos píncaros que foram domados nas gerações anteriores. Não é por isso de estranhar que a estrada que nos levou até onde estamos agora, na véspera da chegada de PES 2014 ao mercado português, tenha sido percorrida com alguma esperança e muita desconfiança. A antevisão que tive oportunidade de escrever há aproximadamente um mês deixou-me com a impressão que o jogo tinha reinventado a série. Agora com inúmeras horas acumuladas na versão final do jogo, essa impressão tornou-se uma certeza. O maior problema do jogo é a estrutura que o suporta, ou seja, o conteúdo passível de ser jogado. Menos estádios – apenas dezanove – e o corte do seu editor, apenas a casa do Benfica a representar Portugal e a ausência da chuva como efeito climatério são apenas sintomas de uma dieta de conteúdos que é culminada com a Liga portuguesa. Apesar de estar incluída no jogo, um breve deslizar pelos menus em português revela a paupérrima gestão de licenças. As equipas licenciadas contam-se pelos dedos de uma mão: Benfica, Braga, Paços de Ferreira e Futebol Clube do Porto. A restante lista é composta por nomes como Osquancha, Nardimcol, Rovaneche ou Estralpao. Se neste momento se estão a interrogar onde anda o Sporting, a resposta tem um nome: Esportiva.
PES 2014 screenshot
A terminar agora, esta análise carimbaria a chegada de PES 2014 ao mercado com uma classificação francamente negativa, contudo, apesar destas ausências, o simulador da Konami tem o coração no lugar certo, ou seja, brilha onde tinha que brilhar para ser um excelente jogo de futebol: na jogabilidade. TrueBall Tech e MASS são os nomes das funcionalidades incorporadas na edição 2014 do jogo. Enquanto o primeiro dá primazia à bola e à maneira como os jogadores interagem com ela, o Motion Animation Stability System (MASS) torna mais natural o embate físico entre os jogadores, simulando os toques inerentes às disputas de bola. Mais inteligente do que incorporar estes sistemas, foi a maneira como a produtora conseguiu interligá-los, colocando-os de uma maneira omnipresente ao serviço da jogabilidade. Numa análise a um jogo de futebol, muito mais importante do que enumerar as suas funcionalidades é descrever o que elas proporcionam ao jogador. Serão poucos os jogadores a brilharem nas primeiras partidas que disputarem em PES 2014, pois a adaptação demora o seu tempo. Os produtores não tentaram reparar o caminho por onde a série se estava a dirigir; abriram uma estrada completamente nova e, tal como procuram um mapa para perceberem as ruas de uma cidade nova, também aqui vão precisar de vários jogos para começarem a assimilar mentalmente a maneira mais eficiente de jogar PES.
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Este texto é publicado em plena jornada da Liga dos Campeões – ontem jogou o Benfica e hoje entra em campo o Porto. Se tiverem oportunidade vejam alguns dos jogos e vão perceber o abrandamento no ritmo do jogo. Segundo o meu ponto de vista, PES 2014 não tem um ritmo de jogo lento, os outros jogos da série é que tinham um ritmo acelerado, ou seja, finalmente não tiveram medo de colocarem no jogo o que acontece no desporto real há anos, dando mais justiça à designação “simulador de futebol”. Além disso, deixarem de terem um jogo com um ritmo frenético em mãos, fez com que as arrancadas dos jogadores ganhem ainda mais significado e, tal como veem na televisão ou no estádio, sempre que conseguimos deixar um ou dois jogadores para trás, esse momento tem muito mais importância e é muito mais celebrado, deixando-nos com a sensação que fizemos algo que não está ao alcance de todos, ou que pelo menos não acontece a cada cinco minutos.
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A individualização está mais enaltecida mas não tem que ser o vosso único talento. Aquelas siglas que descrevi há alguns parágrafos atrás servem também para dar um tom mais realista à defesa. Como os movimentos estão mais fluidos, as disputas de bola combinam isso com a animação dada aos jogadores, neste caso em lutas corpo-a-corpo que celebrizaram jogadores como Petit ou Bruno Alves. Se juntarmos Paulinho Santos ao lote, ficamos com jogadores que permanecerão recordados por darem espetáculo na bravura que colocavam ao serviço dos confrontos diretos – tantas vezes ofuscada pela fama de jogarem mais às pernas do que à bola. Quando suplantaram tudo isto, serão confrontados com o dilema de passar ou rematar à baliza. Se passarem a bola estão a alimentar a beleza da jogada, porém, é difícil resistir à tentação de fazer golo. Serão muito mais as vezes que vão falhar, porém, quando por habilidade e bafejados pela sorte acertam, existirá um nanossegundo em que vão ter a certeza que nada nem ninguém vai parar o remate. É nessa fração de tempo em que o próprio tempo para e mais rapidamente do que tudo o que passa à vossa volta naquele momento, as pontas dos dedos comunicam ao vosso cérebro a certeza que vão marcar um grande golo. E marcam, festejando interiormente enquanto o jogador desliza os joelhos pela relva e é abraçado pelos colegas de equipa, pois lá no fundo sabem que foram vocês que urdiram tudo o que levou a que metade do estádio se levantasse. O melhor é que seja em força ou em jeito, quanto mais tempo passarem dentro do relvado, melhor dominam a fina arte de colocar a bola dentro da gaveta.
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Cada jogador de PES terá a sua habilidade, portanto, o segredo para que todos os momentos descritos até aqui sejam uma realidade está na escolha do grau de dificuldade mais adequado – Iniciante, Amador, Intermédio, Profissional, Estrela e Super-estrela, ainda que os primeiros não sejam adequados a ninguém. Tive o cuidado de experimentar várias partidas nesses graus de dificuldade e para tornar o jogo acessível, praticamente nada do que descrevi até aqui é colocado na prática, deixando o jogador fazer o que lhe dá na real gana, passando pelos adversários todos e rematando sem oposição do guarda-redes. Já que estamos falar de guardiões, convém mencionar que a sua inteligência artificial tem algumas falhas assinaláveis e, sobretudo, uma agressividade algo inconsistente. Felizmente, a inteligência que equipa a massa cinzenta dos jogadores que ocupam as restantes posições foi limada e tornada minimamente coerente durante os noventa minutos. Não quero dizer que não haja picos esporádicos de comportamentos menos inteligentes, todavia, apesar de serem um pouco frustrantes, nunca senti que colocassem em risco o desenrolar da partida. Ainda um apontamento para as bolas paradas. Sempre que forem chamados a converter este tipo de penalizações terão ao vosso dispor uma linha que ajuda significativamente a determinar para onde vão enviar a bola. Obviamente terão que ter em conta a força aplicada à bola, porém, torna-se muito mais fácil e dinâmico transformar livres em golos, por exemplo. Muitos ficarão satisfeitos em disparar um “míssil à moda de Ronaldo”, contudo, pessoalmente nunca consegui deixar de sentir que estava a fazer batota, sobretudo porque no futebol não existem este tipo de ajudas. Seria muito mais interessante existir a possibilidade de desativar esta função depois de aprendermos os básicos.
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Antes de entrarmos nos campos mais técnicos, deixem-me só dar uma palavra sobre os modos de jogo. Se lerem a análise desde o início estarão a par dos cortes feitos em conteúdo importante, contudo, a arquitetura do jogo divide-o em cinco secções distintas: Jogo, Vida Futebolística, Competição, Treinos e Editar. Existem alguns que se explicam pelo próprio nome: Jogo é a maneira mais rápida de começarem um jogo isolado, Treinos serve para aperfeiçoarem a técnica e a opção Editar serve para alterarem jogadores, equipas, estruturas de competições e uma seleção muito restrita de estádios: Konami Stadium, Royal London Stadium, Burg Stadion, Estadio de Escorpião e Estadio del Nuevo Triunfo. Contudo, será nos modos Vida Futebolística e Competição que passarão a maior parte de vosso tempo. Porquê? Porque o primeiro inclui os modos Master Liga e Rumo ao Estrelato. Se o primeiro continua viciante como sempre, o segundo coloca-vos na pele de um jogador e à vossa frente têm a oportunidade de viver a sua vida. Finalmente, no modo Competição poderão aceder à Liga dos Campeões, Liga Europa, Libertadores, Liga dos Campeões Asiática e às Taças e Ligas locais, onde se encontra a já discutida Liga portuguesa. Em termos técnicos temos que dar destaque à aposta da equipa de produção no motor Fox Engine, o que não só ajuda na fluidez dos jogadores, como finalmente dá um tom polido às suas casas, sobretudo nos jogadores mais conhecidos, e a todo o ensemble que rodeia uma partida de futebol, apesar de em alguns planos as bancadas parecerem uma experiência de clonagem que correu mal. Resumidamente, PES parece finalmente retirar do poderio das plataformas onde foi lançado. No capítulo sonoro, além das várias faixas que dão o mote, destaque ainda para a inclusão de uma música clássica – Nessun Dorma – e a possibilidade de carregarmos até 64 músicas do nosso disco rígido. Em termos de comentários, depois de selecionados no menu Opções, podemos contar com Pedro Sousa auxiliado pela análise de Luís Freitas Lobo.
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PES 2014 é um romper com as amarras tradicionais da série. É certo que apresenta a ausência de alguns conteúdos importantes, sobretudo se forem jogadores portugueses, contudo, sente-se o trabalho da produtora em colocar em marcha a revolução que já era prometida há muito. As novas funcionalidades trabalham em conjunto com o Fox Engine para que o jogador termine cada partida, cada competição, enfim, cada sessão de jogo com o sentimento que o jogo deixou a sua habilidade brilhar.   [highlight color=”eg. yellow, black”]NOTA: 9/10[/highlight]
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